Avanço da tecnologia exige um novo perfil de estudantes

Por Cristina Salvadeo em 18 de maio de 2009
"Desejar o saber é da natureza do ser humano" constatava Aristóteles, na Antiguidade. Esse desejo levou os homens da sociedade industrial a organizar a vida dos cidadãos em três grandes fases: a juventude, quando por volta de 20 anos dedicam-se a aprender a "vida ativa", que dura em média 30 anos; e a "melhor idade", quando sobram de 10 a 30 anos para aproveitar o que conseguiram conquistar.

Nesse modelo, o Estado e a família ficaram responsáveis por providenciar a infra-estrutura necessária à fase inicial de aprendizagem. O sistema educacional foi pensado para desenvolver nos indivíduos as aptidões culturais, científicas e técnicas para que eles se tornem cidadãos produtivos e retribuam por meio de tributos que vão financiar a formação das novas gerações.

Hoje, a era pós-industrial deixa claro os limites deste sistema. Primeiro, porque os estados enfrentam grandes dificuldades estruturais para manter um sistema educacional de qualidade que seja capaz de reduzir o gap entre estudantes formados e profissionais capacitados. É que o conhecimento das organizações é tão complexo e avançado que as formações genéricas tendem a gerir profissionais relativamente despreparados para a realidade empresarial.

Segundo, porque o ritmo com o qual a humanidade gera novos conhecimentos exige uma aprendizagem constante do profissional ao longo da vida. Tão importante quanto o conteúdo da formação é a capacidade de aprender a aprender; ou seja, de se tornar um eterno estudante.

Por fim, porque as evoluções tecnológicas das últimas duas décadas possuem um impacto ainda subestimado sobre os sistemas de ensino/aprendizagem. Isso tudo nos leva a refletir sobre algumas das competências-chave para aquele que se propõe a aprender algo na era digital.

Esse novo estudante deve saber lidar com a abundância de recursos. Hoje, se você deseja aprender, por exemplo, sobre o estado da arte em sistemas de busca, é possível acessar milhares de conteúdos que tratam a questão. Porém, quem conhece o canal da Universidade de Berkeley, no YouTube, pode assistir à aula que o Sergey Brin (fundador do Google) ministrou na própria universidade. A quantidade de informação na rede cresce de maneira exponencial e as ferramentas de busca melhoram cada vez mais o acesso às informações. Em contrapartida, raros são os estudantes capazes de manter o foco em sua busca, sem se deixar levar por outros tantos assuntos que aparecem durante suas pesquisas na internet. Existem inúmeros recursos capazes de aproximar mais e mais os alunos de seus objetivos, mas a relação com as fontes de informação muda, já que saber compilar resultados realmente pertinentes ainda é um desafio na era digital. É preciso aprender a selecionar o relevante.

Outro ponto fundamental é a capacidade de contribuir com o processamento e a criação de recursos. A Wikipédia, com mais de três milhões de artigos em 255 línguas, foi (e ainda é) construída com a contribuição de seus usuários, demonstrando o poder da abordagem colaborativa na construção de referenciais eficientes. A principal evolução, conhecida como Web 2.0, foi a melhoria ergonômica das ferramentas de produção e difusão de conteúdos, facilitando a criação individual e participativa. O domínio dessas soluções constitui mais um desafio para o aprendiz de hoje: colocar-se como contribuinte pertinente neste espaço. Dominar os recursos de produção é um passo essencial para que o estudante desenvolva suas habilidades cognitivas.

A terceira competência é saber criar o seu próprio ambiente de aprendizagem on-line, não só em termos de conteúdo, mas também em serviços. No modelo das páginas de perfis das redes virtuais, existe uma forte tendência a oferecer ao usuário uma quantidade surpreendente de recursos para personalizar tanto as fontes de informação que ele costuma consultar, quanto os serviços web que ele utiliza nas páginas pessoais. Assim, ferramentas como o MOODLE -atualmente considerada a melhor plataforma de aprendizagem de código aberto disponível no mercado- se tornaram recursos de alto potencial para definir ambientes interativos poderosos, sem a obrigatoriedade de possuir conhecimentos tecnológicos para poder utilizá-lo.

Porém, tais plataformas ainda trabalham com uma estrutura adaptada à secular tradição educacional, na qual a responsabilidade do aluno na construção de seus percursos é limitada, reduzindo sua atuação ao que já está previamente estabelecido pelos "educadores". O próximo desafio é oferecer aos estudantes plataformas que eles mesmos possam adaptar e compartilhar em função de seu estilo de aprendizagem e de suas lacunas de conhecimento. O sucesso das tecnologias de entretenimento digital, desde os jogos virtuais em rede, passando pelas plataformas de compartilhamento de conteúdo, até as redes sociais devem servir de inspiração para recolocar a aprendizagem como uma atividade atraente.

De acordo com Roy Amara, do Instituto para o Futuro, temos tendência a superestimar o impacto de uma tecnologia em curto prazo e a subestimá-lo no médio e longo prazo. As tecnologias educacionais, após terem muitas vezes decepcionado os usuários ao propor soluções lentas e pouco criativas, estão entrando na maturidade, oferecendo recursos cada vez mais interessantes, poderosos e interativos. Cabe a quem quiser aproveitar todo este potencial desenvolver suas aptidões de aprendiz digital, experimentando e filtrando. Na era digital ou analógica, o sucesso sempre vai depender do empenho de quem deseja aprender.

Fonte: Valor Econômico

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